terça-feira, 30 de agosto de 2011

Por fim, um pequeno pedaço de Angola

Ter conhecido aquele pedaço de Angola foi uma experiência fascinante. Uma descoberta de mundo, a abertura de um horizonte e a mudança de muitas percepções. Talvez a mais importante de todas seja reconhecer que há igualdade entre nações, mesmo que separadas pela imensidão desse oceano.

É bom reconhecer familiariadades - de fauna, de idioma, na forma de ver as coisas. Temos todos os resquícios de colonizados (nós, por menos tempo que eles) pelo mesmo colonizador-predador português, mau gerenciador de domínios. Mas como nós carregamos o peso do roubo a que fomos sujeitos por 200 anos, Angola também vai se recuperando das perdas de 500.

Ver Luanda em construção, erguendo-se em muitos sentidos e de forma clara, foi um privilégio. Encheu os meus olhos reconhecer a pobreza familiar, as diferenças que o dinheiro compra, a ineficiência do Estado - ver o desejo daquele lugar de se reconhecer enquanto nação. Há ali planos de ufanismo, necessários, indispensáveis, que se plantam.

No mais, peço perdão por não conseguir ser mais clara com palavras. Espero ter podido reportar, como minha profissão exige, todas as coisas que fui capaz de ver e sentir nos dias em que passei em Luanda. Passaria mais, para rever detalhes e descobrir mais.

Abaixo, a matéria que escrevi para a Folha de Pernambuco. Poderia ter feito melhor, Luanda superou todas as expectativas, por todos os detalhes. Agradeço à minha chefe, Lorena Ferrário (@lorenaferrario), por ter me ajudado a conseguir as férias de última hora, e ao editor de Turismo, Thiago Soares (@thikos) pelo espaço enorme. E a painho, que me deu esse presente inesquecível.


Texto legível. Basta clicar

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Abre uma conta do banco...

Há uma campanha aqui em Luanda, educativa, tentando convencer as pessoas a abrirem contas em bancos. O filme que passa na televisão dramatiza várias situações nas quais uma conta no banco pode facilitar a vida e o quanto guardar dinheiro em casa pode ser perigoso.

- Você não acredita! Fui assaltado e não consegui salvar nem cinco kwanzas! - diz o personagem no primeiro filme...


E uma senhora completa: Eu já disse. Dinheiro é no banco...







No segundo, um rapazinho pensa:
- Preciso juntar algum dinheiro. Acho que vou abrir uma poupança.

E a senhora diz: Se tivesses aberto uma conta há quatro anos, imagina quanto já terias?

O terceiro diálogo:
- Preciso ampliar o armazém. Acho que vou pedir dinheiro emprestado ao tio José...
E a senhora informa: Abra uma conta no banco. Uma empresa séria pode pedir um empréstimo...

O informe finaliza: Muitas pessoas perdem tudo por guardar dinheiro em casa. Não corra esse risco. Abra uma conta no banco!

A campanha também incentiva os estabelecimentos comerciais e prestadores de serviço a aceitar cartão Multicaixa, de débito em conta. Cartão de crédito, por aqui, não encontrei quem aceitasse...

MULTICAIXA - "É facilidade e segurança"

Clicks - Meninos Pintores de Angola

Eu curti muitíssimo ter conhecido esse trabalho. Eles fazem exatamente o que é recomendado: ensinam a pescar.


De verde, a espanhola Carmen, artista plástica e "tutora técnica" dos meninos. De amarelo, Renata, brasileira, que coordena o projeto

Alguma dúvida de que são artistas?

Caricaturas pelas paredes do espaço

Carmen dado orientações a Cris. Ele pinta máscaras africanas lindas!

Arte do Isaac

Concentração do artista!

Ó nóis aí... =D

Homenagem a Michael

Dia 18 de agosto, em Luanda

Ontem foi um dia interessante - dia de turistar, de boa comida e de conhecer um pouco mais da gente de Luanda.

Monografia entregue, fui conhecer outras bandas da cidade. A primeira parada foi em um projeto chamado Meninos Pintores de Angola, que funciona no Centro de Acolhimento Arnaldo Janssen. É uma instituição que acolhe meninos que ficam sem família ou que perambulam pelas ruas.

Aqui, homem pode ter mais de uma esposa, se tiver condições de sustentá-las. Se a mulher fica viúva e casa-se novamente, o problema passa a ser os filhos do primeiro casamento. Disseram que no Centro há vários meninos que viviam nessa situação, que foram obrigados a "assumir" que faziam feitiçaria e acabaram expulsos de casa.

O Centro mantém as portas abertas, vive de pequenos serviços e de doações. São muitos os meninos. Não souberam me precisar quantos. Devem ficar por lá até os 18 anos, mas acabam ficando por mais tempo.

Alojamento

Bem, os Meninos Pintores de Angola recebem orientações técnicas e material para desenvolver suas telas. Algumas, surpreendentes, de fato. Em novembro, eles vão expor as obras na exposição anual de um banco aqui de Angola. Faço outro post sobre eles depois...





Logo depois, destino: mercado de São Paulo. Não exatamente ele, mas um "galpão" próximo, onde se vende "pano", aqueles tecidos coloridos, bonitos, que se usa pra fazer roupa, pra amarrar na cabeça ou pra amarrar menino nas costas. Uma beleza!

As peças vêm engomadas com um tipo de cera e têm, cada uma, cerca de 5,5 metros. Muitas estampas...

Comércio livre, nos arredores do mercado de São Paulo

Vai um peixinho ai?

Retomando o dia 16

Luanda é um lugar interessantíssimo que se reergue de tempos de guerra. Até 2002, o país viveu em guerra civil e o resultado é o que já relatei. Problemas até familiares, diria.

Mas, obviamente, meu intuito aqui não é ficar narrando problemas. Bora falar de coisa boa, já que eu ainda estou de férias.



Essa é a obra da nova sede da Assembleia Nacional de Angola. Essa imagem da placa é a perspectiva do prédio, nesse estilo antigo. Eu nunca tinha visto esse tipo de edificação sendo feita. Infelizmente, não consegui fotografar a fachada...

André tinha me pedido um prato típico. Isso aí é um doce de leite, diferente do que tem no Brasil. Chama-se baba de camelo - é mais leve e tem um gosto um pouco mais ácido. Gostei muito...

Eu não resisto aos embondeiros

Gruas e mais gruas....

Olha o cabelinho dela.... =)

Estava presa em um engarrafamento e esse cidadão estava assim, brincando. Fiquei pensando o que ele estava fantasiando ali...

Numa praça pública, próxima a Avenida da Samba (assim mesmo, "a")

Olha o nome do colégio... Gostei!

Essa baixinha aí tava numa alegria só. Uma senhora varria a calçada e ela (aliás, elas) ficava dando voltas no carro e brincando com a vassoura. Atrapalhando, claro, e gargalhando. A rua era estreita, então não podia fotografar muito...

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Explicando o hiato

Ia tudo muito bem, até Natália chegar com uma mensagem que mudaria o rumo das minhas férias luandinas. Segue o diálogo*


Natália diz: Tu tens que entregar a monografia até sexta!
Eu digo: Sexta? Que sexta?
Natália explica: Dia 20...
Eu falo: Oxe... tá doida? Sem condições. Só trouxe um dos livros da bibliografia. Não tem como!
Natália fecha: Pois tem que dar. Se não entregar até sexta, perde o curso.


E foi assim que eu terminei uma monografia em poucos dias. Deus sabe lá como...
E foi por isso que eu fiquei sem postar por cá


Agora, uma homenagem super adequada ao momento, à minha indisciplina e a Chico Buarque, "objeto de estudo desse trabalho". E retomemos Angola, que já é hora!





* Esse diálogo foi dramatizado

domingo, 14 de agosto de 2011

Angola - algumas observações

Além de imagens, acho válido também expor algumas impressões sobre a capital angolana, até mesmo para dar pistas que desmistifiquem algumas coisas.

Primeiro, houve quem perguntasse porque a maioria das minhas fotos são tiradas de dentro do carro. Bem, os relatos que ouço aqui é que tirar fotos em espaços públicos não é um ato muito bem visto, principalmente aos olhos da polícia. Uma pessoa me contou que, nos primeiros meses aqui, fotografando um empresarial, foi interpelada por um policial e levada pra uma esquadra (delegacia) por causa disso. Acabou prestando alguns esclarecimentos e "solta" no final do dia, mas não sem antes passar pela truculência das autoridades locais. Meu pai vive reclamando comigo no carro, dizendo que eu vou acabar causando algum constrangimento por ficar tirando foto de tudo.

Segundo que Luanda não tem movimentação turística. Potencial tem - pelo menos eu tenho gostado da cidade, mas o que me dizem é que não existe isso de solicitar visto de turista ao consulado angolano. Aqui, só a trabalho. Entrar no país, só a "convite" de uma grande empresa. E olhe lá...

Terceiro. Luanda é uma cidade cara. Caríssima. Já falei disso em outro post. Hotéis médios chegam a cobrar o equivalente a US$ 350 por uma diária. O estacionamento do único shopping da cidade custa US$ 4, mais ou menos. Bom aqui é o preço do combustível: Kz 60 (o litro da gasolina) e Kz 40 (o litro do gasóleo, como eles chamam o diesel).

Aqui, o sistema de transporte público é altamente deficiente. É o quarto item: quase não há ônibus de linha (vi uns cinco, esses dias todos), não vi táxis como os que nós conhecemos no Brasil e o que circula pelas ruas fazendo o serviço são umas vans que eles chamam de kandonga. Elas não têm tarifa definida nem seguem regras que determinam número de passageiros ou itinerários. São um dos motivos do trânsito daqui ser como é.

Kandonga


Quinto. Não vi hospitais públicos aqui. Meu pai disse que eles não existem e, em caso de doença, a população precisa pagar "gorjetas" para ser atendida em particulares.

Sexto: o sistema previdenciário é recente, então os já idosos estão totalmente desamparados.

Em sétimo lugar, em Luanda quase não há escolas particulares. O ensino público, como é de se esperar, não é nada bom, principalmente por falta de professores, e as poucas instituições particulares são caras. As mensalidades têm que ser pagas de uma vez, no início do ano letivo, que é no mês de agosto. Cifras que superam US$ 40 mil. Para um povo que tem salário mínimo de Kz 17 mil (US$ 170), não dá nem pra sonhar...

Oitavo e último. Algo em torno de 25% dos angolanos têm Aids, mas esse é um dado que eu ainda quero confirmar. Será que eles me recebem no Ministério da Saúde?

E como tenho dito: qualquer semelhança conosco não é mera coincidência. Corrupção aqui também é algo latente e propagado.

sábado, 13 de agosto de 2011

Ilha de Luanda - uma cidade bela ao longe

Hoje o fuso horário me derrubou, mas vamos começar esse post mudando de assunto, porque férias não é momento de canseira.

Pois bem. O passeio de hoje foi até a ilha de Luanda (na verdade, um istmo), local de vista bonita. Fomos lá almoçar no Cais de Quatro, um restaurante em cima da água, charmosinho e agradável. André tinha me pedido fotos da culinária local, mas não tem jeito, amigo. Os pratos são os mesmos. O almoço de hoje, escolha do grupo, foi uma "feijoada brasileira". Ninguém colabora com a turista aqui, né?

Hoje eu estou cansada porque fui dormir tardíssimo ontem correndo com a monografia da pós. Claro que as férias não poderiam ser só paz, né? 

IMAGENS DO DIA (Clica...)

Prédio do Banco Nacional de Angola - imagem troncha de dentro do carro

"Calçadão"

Engarrafamento monstro - O trânsito daqui não me parece o caos que as pessoas falam. Aliás, é um caos familiar...

O "fino" da Cuca. Fiquei no primeiro e troquei por um suco de melancia com canela que tinha um gosto esquisito

Pôr do sol da Ilha de Luanda

Galera reunida. Gostei dessa, apesar da pressa

Parece desolado, não? Bandeira de Angola, essa nação bonita

Eles estão alargando o istmo. O navio aí é uma draga, jogando areia 

Aproveitei bem o sol...

Mesmo na pressa, enfim, um horizonte em linha reta

Não digo que muito por aqui é super familiar? Olha o Bob's da Ilha de Luanda

Mausoléu de Agostinho Neto, primeiro presidente da República de Angola

E obras... eu não me acostumo com essas gruas no meio da cidade

Peixinhos aos nossos pés, no Caís de Quatro

Coisinhas inusitadas pelas ruas de Luanda

Curti a cena...

Primeira vez na vida que eu vejo um viaduto com faixa de pedrestes

Uma vista "aérea" de Luanda

A cidade de Luanda, vista do Cais de Quatro

Vista de Luanda... e tome obras

Vista de Luanda - nessa área da "nova" cidade, esses condomínios fechados de casas são bem comuns. E custam caro

Mais condomínios

E a outra face de Luanda. Qualquer semelhança não é mera coincidência.  Basta lembrar que Angola também foi colônia portuguesa

E mais do outro lado de Luanda

E mais vista do istmo. Disseram que parecia Salvador (!!!). Nada a ver...

E mais do istmo. Luanda tem muitos prédios, principalmente no centro da cidade